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terça-feira, 15 de março de 2011

O Boca do Inferno

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Sim, sei que sou uma blogueira relapsa, mas fazer o que né? Escrevo, não nego, posto quando puder. hehe

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Hoje o post é sobre poesia, mais especificamente sobre um poeta em especial: Gregório de Mattos, o Boca do Inferno.

Gregório de Mattos Guerra foi um poeta baiano do século XVII, considerado o maior poeta barroco do Brasil e um dos mais importantes satíricos em língua portuguesa.

O porquê do singelo apelido? Matos começou a ser chamado de Boca do Inferno em decorrência de suas poesias sempre tão críticas à igreja, padres e freiras... Geralmente dizendo algo como:


Ao Mesmo Assumpto e na Mesma Occasião
 
Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido,
Porque quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,

A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada

Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história:

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,

Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

ou

Define o poeta os maus modos de obrar na  governança da Bahia, 
principalmente naquela universal fome que padecia a cidade

Que falta nesta cidade? ... Verdade.
Que mais por sua desonra? ... Honra.
Falta mais que se lhe ponha? ... Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade, onde falta
Verdade, honra, vergonha.

Quem a pôs neste socrócio? ... Negócio.
Quem causa tal perdição? ... Ambição.
E o maior desta loucura? ... Usura.

Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que o perdeu
Negócio, ambição, usura.

Quais são meus doces objetos? ... Pretos.
Tem outros bens mais maciços? ... Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos? ... Mulatos.

Dou ao Demo os insensatos,
Dou ao demo o povo asnal,
Que estima por cabedal
Pretos, mestiços, mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos? ... Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas? ... Guardas.
Quem as tem nos aposentos? ... Sargentos.

Os círios lá vêm aos centos,
E a terra fica esfaimada,
porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.

E que justiça a resguarda? ... Bastarda.
É grátis distribuída? ... Vendida.
Que tem, que a todos assusta? ... Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça,
Que anda a justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.

Que vai pela clerezia? ... Simonia.
E pelos membros da Igreja? ... Inveja.
Cuidei, que mais se lhe punha? ... Unha.

Sazonada caramunha!
Enfim, que na Santa Sé
O que se pratica, é
Simonia, inveja, unha.

E nos frades há manqueiras? ... Freiras.
Em que ocupam os serões? ... Sermões.
Não se ocupam em disputas? ... Putas.

Com palavras dissolutas
Me concluo na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões, e putas.

O açúcar já se acabou? ... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu? ... Subiu.
Logo já convalesceu? ... Morreu.

À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece:
Cai na cama, e o mal lhe cresce,
Baixou, subiu, e morreu.

A Câmara não acode? ... Não pode.
Pois não tem todo o poder? ... Não quer.
É que o governo a convence? ... Não vence.

Quem haverá que tal pense,
Que uma Câmara tão nobre
Por ver-se mísera, e pobre
Não pode, não quer, não vence!

ou ainda

Definição do Amor

Mandai-me Senhores, hoje
que em breves rasgos descreva
do Amor a ilustre prosápia,
e de Cupido as proezas.

Dizem que de clara escuma,

dizem que do mar nascera,
que pegam debaixo d’águaas

armas que o amor carrega.

O arco talvez de pipa,

a seta talvez esteira,
despido como um maroto,
cego como uma toupeira

E isto é o Amor? É um corno.

Isto é o Cupido? Má peça.
Aconselho que não comprem
Ainda que lhe achem venda

O amor é finalmente

um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias

Uma confusão de bocas,

uma batalha de veias,
um reboliço de ancas,
quem diz outra coisa é besta.


Quem mais teria coragem de falar todas essas coisas lá em mil seiscentos e lá vai pedrada? Gregório de Matos é meu herói, haha.
Se quiserem ler mais poemas desse maravilhoso artista acessem o site memória viva.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

O Corvo - Tradução de Machado de Assis

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Em certo dia, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais".
Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;

Cada brasa do lar sobre o colchão refletia
A sua última agonia.
Eu ansioso pelo Sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguém chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui, no peito,
Levantei-me de pronto, e
"Com efeito, (Disse), é visita amiga e retardada "
Que bate a estas horas tais.
"É visita que pede à minha porta entrada:
"Há de ser isso e nada mais".

Minh'alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo, e desta sorte
Falo: "Imploro de vós - ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
"Mas como eu, precisando de descanso "
Já cochilava, e tão de manso e manso,
"Batestes, não fui logo, prestemente, "
Certificar-me que aí estais".
Disse; a porta escancar, acho a noite somente,
somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra
Que me amedronta, que me assombra.
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, com um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro co'a alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Älguma coisa que sussurra. Abramos,
"Eia, fora o temor, eia, vejamos
"A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais,
"Devolvamos a paz ao coração medroso,
"Obra do vento, e nada mais".

Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante.
Tinha o aspecto de um lord ou de uma lady.
E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta em um busto de Palas:
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gosto severo, - o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "Ó tu que das noturnas plagas
"Vens, embora a cabeça nua tragas,
"Sem topete, não és ave medrosa,
"Dize os teus nomes senhoriais;
"Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o corvo disse: "Nunca mais".

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que eu lhe fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Coisa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta a dizer em resposta
Que este é seu nome: "Nunca mais".

No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário.
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda sua alma resumisse,
Nenhuma outra proferiu, nenhuma.
Não chegou a mecher uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
"Tantos amigos tão leais!
"Perderei também este em regressando a aurora".
E o corvo disse: "Nunca mais!"

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
"Que ele trouxe da convivência
"De algum mestre infeliz e acabrunhado
"Que o implacável destino há castigado
"Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
"Que dos seus cantos usuais
"Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
"Esse estribilho: "Nunca mais".

Segunda vez nesse momento
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E, mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera,
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais".

Assim pôsto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranqüilo, a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da Lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível:
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
"Manda repouso à dor que te devora
"Destas saudades imortais.
"Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora".
E o corvo disse: "Nunca mais".

"Profeta, ou o que quer que sejas!
"Ave ou demônio que negrejas!
"Profeta sempre, escuta:
Ou venhas tu do inferno
"Onde reside o mal eterno,
"Ou simplesmente náufrago escapado
"Venhas do temporal que te há lançado
"Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
"Tem os seus lares triunfais,
"Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o corvo disse: "Nunca mais".

"Profeta, ou o que quer que sejas!
"Ave ou demônio que negrejas!
"Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
"Por esse céu que além se estende,
"Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
"Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
"No Éden celeste a virgem que ela chora
"Nestes retiros sepulcrais,
"Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!"
E o corvo disse: "Nunca mais!"

"Ave ou demônio que negrejas!
"Profeta, ou o que quer que sejas!
"Cessa, ai, cessa! (clamei, levantando-me) cessa!
"Regressando ao temporal, regressa
"À tua noite, deixa-me comigo...
"Vai-te, não fique no meu casto abrigo
"Pluma que lembre essa mentira tua.
"Tira-me ao peito essas fatais
"Garras que abrindo vão a minha dor já crua"
E o corvo disse: "Nunca mais".

E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

The Raven

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The Raven
(O Corvo)
- Edgar Allan Poe -

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
"'Tis some visitor," I muttered, "tapping at my chamber door-
Only this, and nothing more."

Ah, distinctly I remember it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow;- vainly I had sought to borrow
From my books surcease of sorrow- sorrow for the lost Lenore-
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore-
Nameless here for evermore.
And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me- filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating,
"'Tis some visitor entreating entrance at my chamber door-
Some late visitor entreating entrance at my chamber door;-
This it is, and nothing more."

Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
"Sir," said I, "or Madam, truly your forgiveness I implore;
But the fact is I was napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you"- here I opened wide the door;-
Darkness there, and nothing more.
Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing,
Doubting, dreaming dreams no mortals ever dared to dream before;
But the silence was unbroken, and the stillness gave no token,
And the only word there spoken was the whispered word, "Lenore!"
This I whispered, and an echo murmured back the word, "Lenore!"-
Merely this, and nothing more.

Back into the chamber turning, all my soul within me burning,
Soon again I heard a tapping somewhat louder than before.
"Surely," said I, "surely that is something at my window lattice:
Let me see, then, what thereat is, and this mystery explore-
Let my heart be still a moment and this mystery explore;-
'Tis the wind and nothing more."
Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,
In there stepped a stately raven of the saintly days of yore;
Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayed he;
But, with mien of lord or lady, perched above my chamber door-
Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door-
Perched, and sat, and nothing more.

Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,
By the grave and stern decorum of the countenance it wore.
"Though thy crest be shorn and shaven, thou," I said, "art sure no craven,
Ghastly grim and ancient raven wandering from the Nightly shore-
Tell me what thy lordly name is on the Night's Plutonian shore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."
Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,
Though its answer little meaning- little relevancy bore;
For we cannot help agreeing that no living human being
Ever yet was blest with seeing bird above his chamber door-
Bird or beast upon the sculptured bust above his chamber door,
With such name as "Nevermore."

But the raven, sitting lonely on the placid bust, spoke only
That one word, as if his soul in that one word he did outpour.
Nothing further then he uttered- not a feather then he fluttered-
Till I scarcely more than muttered, "other friends have flown before-
On the morrow he will leave me, as my hopes have flown before."
Then the bird said, "Nevermore."

Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,
"Doubtless," said I, "what it utters is its only stock and store,
Caught from some unhappy master whom unmerciful Disaster
Followed fast and followed faster till his songs one burden bore-
Till the dirges of his Hope that melancholy burden bore
Of 'Never- nevermore'."

But the Raven still beguiling all my fancy into smiling,
Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird, and bust and door;
Then upon the velvet sinking, I betook myself to linking
Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore-
What this grim, ungainly, ghastly, gaunt and ominous bird of yore
Meant in croaking "Nevermore."
This I sat engaged in guessing, but no syllable expressing
To the fowl whose fiery eyes now burned into my bosom's core;
This and more I sat divining, with my head at ease reclining
On the cushion's velvet lining that the lamplight gloated o'er,
But whose velvet violet lining with the lamplight gloating o'er,
She shall press, ah, nevermore!

Then methought the air grew denser, perfumed from an unseen censer
Swung by Seraphim whose footfalls tinkled on the tufted floor.
"Wretch," I cried, "thy God hath lent thee- by these angels he hath sent thee
Respite- respite and nepenthe, from thy memories of Lenore!
Quaff, oh quaff this kind nepenthe and forget this lost Lenore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

"Prophet!" said I, "thing of evil!- prophet still, if bird or devil!-
Whether Tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,
Desolate yet all undaunted, on this desert land enchanted-
On this home by horror haunted- tell me truly, I implore-
Is there- is there balm in Gilead?- tell me- tell me, I implore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

"Prophet!" said I, "thing of evil- prophet still, if bird or devil!
By that Heaven that bends above us- by that God we both adore-
Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,
It shall clasp a sainted maiden whom the angels name Lenore-
Clasp a rare and radiant maiden whom the angels name Lenore."
Quoth the Raven, "Nevermore."
"Be that word our sign in parting, bird or fiend," I shrieked, upstarting-
"Get thee back into the tempest and the Night's Plutonian shore!
Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!
Leave my loneliness unbroken!- quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

And the Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming,
And the lamplight o'er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted- nevermore!
Ver todas as ilustrações feitas por Gustave Doré para o conto.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Literatura e cinema

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A literatura por si só é magnífica, pois consegue construir um universo em que o leitor se perde, descobrindo novos mundos, personagens e histórias; viajando pelo desconhecido sem sair de sua casa. O livro é o objeto mágico que, além de transportar as pessoas a esses lugares e épocas com um simples virar de páginas, abriga o desconhecido, nunca se sabe que aventuras serão encontradas nas páginas seguintes. O escritor é a peça-chave disso tudo, o mago que controla o passado, o presente e o futuro da narrativa, nada existiria sem ele; nem o Sol, as estrelas, os planetas ou os seres, ele é o criador de tudo... Onipresente e sempre pronto a colocar uma vírgula, um ponto ou o temido “fim” na última página.

O cinema, assim como a Literatura, é uma forma de arte, quanto a isso não há dúvidas. Ao sentar em uma poltrona, na sala escura do cinema ou mesmo em casa em frente à TV, para assistir a um filme, o espectador é quase que hipnotizado, dominado e, ao mesmo tempo, fascinado pela linguagem das imagens, como acontece na “Alegoria da caverna”, de Platão. Filmes provocam sensações, emoções e pensamentos na platéia, fazendo-a crer nas informações passadas na tela, transportando-a para o universo fílmico. Unir esse dois mundos em uma única obra é um feito inigualável, que reúne o poder das palavras com as imagens, cores e sons do cinema, representando a história da melhor forma possível, utilizando tanto os recursos fílmicos quanto os literários.

Adaptações são necessárias para a transposição da forma escrita para uma forma visual, mais dinâmica, em que nem tudo precisa ser “falado” e emoções podem ser transmitidas por olhares e gestos. Um livro não passa ao leitor a mesma idéia visual que um filme, o escritor se mune de palavras para descrever seus personagens, lugares e passagens, dando a cada pessoa a liberdade de imaginar o universo presente no livro de sua forma pessoal; independentemente da opinião do autor, após escrito, cada personagem é imaginado de uma forma diferente, na individualidade do leitor.

Assim como diz Juracy Saraiva no livro Narrativas verbais e visuais: leituras refletidas, a narrativa fílmica mostra para narrar e a literária narra para mostrar*. O cinema não é “melhor” que a literatura, nem a literatura é “melhor” que o cinema. São formas artísticas diferentes, independentes até, que podem seguir sua trajetória tanto separadas como se complementarem, criando uma obra de arte única. E usando as palavras de Marinês Kunz, retiradas do mesmo livro, a mimese da mimese tem, portanto, brilho próprio na medida em que, simultaneamente, depende e independe do texto original**.

*SARAIVA, Juracy Assmann. Literatura e cinema: encontro de linguagens in Narrativas verbais e visuais: Leituras Refletidas – São Leopoldo: Editora Unisinos, 2003. p.26
**KUNZ, Marinês Andrea. Literatura e cinema: encontro de linguagens in Narrativas verbais e visuais: Leituras Refletidas – São Leopoldo: Editora Unisinos, 2003. p.65.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Les Liaisons Dangereuses

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As relações perigosas ou Cartas recolhidas num meio social e publicadas para o ensinamento de outros é um romance do escritor francês Pierre-Ambroise Choderlos de Laclos (1741 - 1803).

O livro narra, por meios de cartas trocadas pelos personagens, um jogo de intrigas e sedução numa França do século XVIII, prestes a ingressar na revolução. Os personagens centrais dessa instigante narrativa são o Visconde de Valmont e a Marquesa de Merteuil, amigos íntimos e amantes, cuja maior diversão é brincar com os sentimentos alheios usando as pessoas como meras marionetes em seus jogos.

A marquesa pede a Valmont que seduza a jovem Cecile de Volanges, prometida a seu ex-marido, o conde de Gercourt. De “[...] apenas quinze anos: um botão de rosa [...]”* a jovem Cecile, recém saída do colégio de freiras, é alvo fácil para estes dois experientes e sensuais predadores; tão fácil que Valmont não tem muito interesse em tal tarefa, pois considera algo muito infame para sua tão grande fama de sedutor.

O interesse do visconde se volta à Madame de Tourvel, religiosa e aparentemente incorruptível pelo amor ou paixão, que ele decide que quer - e vai - conquistar, a qualquer custo; o que desagrada sua amiga, Marquesa de Merteuil, que insinua que nosso amável cafajeste estaria finalmente se rendendo ao amor e, por consequência, a uma mulher.

No meio de tantas mentiras, inveja e traição, Valmont e Merteuil acabam voltando-se um contra o outro, fazendo toda essa perigosa teia de intrigas desabar, revelando assim o verdadeiro caráter desses tão íntimos inimigos. Assim, após as revelações serem feitas e lermos o desfecho, entendemos o porquê do título dizer que são "relações perigosas" e o livro ser considerado um dos maiores clássicos literários de todos os tempos.

*Laclos, Pierre-Ambroise-François Choderlos de, 1741-1803. As Relações Perigosas / Choderlos de Laclos; tradução e texto sobre o autor e a abra por Carlos Drummond de Andrade – Rio de Janeiro: Ediouro; São Paulo; Publifolha, 1998 – (Biblioteca Folha. Classicos da Literatura Universal; 11) – p. 20

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Ser ou não ser, eis a questão...

3 pessoas comentaram

"Agora estou só.
Oh, que ignóbil eu sou, que escravo abjeto!
Não é monstruoso que esse ator aí,
Por uma fábula, uma paixão fingida,
Possa forçar a alma a sentir o que ele quer,
De tal forma que seu rosto empalidece,
Tem lágrimas nos olhos, angústia no semblante,
A voz trêmula, e toda sua aparência
Se ajusta ao que ele pretende? E tudo isso por nada!
Por Hécuba!
O que é Hécuba pra ele, ou ele pra Hécuba,
Pra que chore assim por ela? Que faria ele
Se tivesse o papel e a deixa da paixão
Que a mim me deram? Inundaria de lágrimas o palco.
E estouraria os tímpanos do público com imprecações horrendas,
Enlouquecendo os culpados, aterrorizando os inocentes,
Confundindo os ignorantes; perturbando, na verdade,
Até a função natural de olhos e ouvidos."

HAMLET, Ato II, Cena 2.
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